Curitibanos lançam seu segundo álbum de estúdio em meio a um caos pessoal e social, repleto de emoções e críticas diretas

Por Fábio Forni e Leonardo Neto

À primeira vista, 2020 foi um ano de caos desproporcional para quase todas as pessoas. Para a banda paranaense CEFA, não foi diferente. Após 5 anos sem lançar um trabalho completo em estúdio, desde o lançamento do seu primeiro disco, a banda presenteia o mundo com seu novo trabalho, intitulado Caos, que ganhou vida graças a cooperação dos fãs através de uma Vakinha Online.

Após encontrarem um novo norte, os curitibanos agora contam com 4 membros dentro do time, levando Caio Weber (vocal), Gabe Oliveira (guitarra), Giovani Gonçalves (baixo) e Bruno Silos (bateria), ao extremo êxtase no que diz respeito ao sentimento dentro da música. Seguindo a fórmula do sucesso de vários discos nacionais e internacionais, a Cefa se trancou em uma chácara por duas semanas, no período de 15 até 28 de Janeiro, antes mesmo de todo esse caos que vivemos acontecer, escolhendo viver momentos de isolamento social, sem saber o que estava por vir meses a frente.

De acordo com a banda, o intuito era produzir o melhor e mais importante trabalho de suas vidas. Tivemos acesso antecipado ao álbum produzido por eles, e podemos dizer que, sem dúvidas, a banda cumpriu seu objetivo. Entre batalhas internas, gritos de socorro e total desconforto sobre comportamentos arcaicos da sociedade atual, a Cefa presenteia não só os fãs, mas todo bom admirador do rock e hardcore com um trabalho enérgico, confrontante e profundo em várias das 12 faixas destrinchadas abaixo!

Cefa
Foto: Cefa / Gabriel Legroski Gritten

Com toda certeza, não haveria outra música melhor para abrir o disco. “Impulso” traz desde os seus primeiros segundos riffs nervosos e uma bateria pesada, que por sinal, a presença mais realçada deste instrumento na mixagem e masterização é um dos maiores destaques deste novo trabalho quando comparado ao primeiro álbum, O Fantástico Azul ao Longe.

A banda demonstra não só nesta, como também outras tracks, que não ignora os acontecimentos catastróficos do mundo atual ao seu redor, e que se for preciso acordar seu público para isto, através da sua arte, irá fazer, pois quem vive não só no meio do rock e hardcore, como em qualquer outro lugar, e se omite perante a esse retrocesso parável, é conivente com tudo. A faixa “Impulso” traz ainda, em um simples trecho e trocadilho, a tônica de grandes problemáticas que debatemos no país atualmente como: armamentos, preconceitos, vida humana, omissão, acobertamento, etc:

Preconceito enraizado e legitimado, violência como arma de vida…

Sem dúvidas, ela é um cartão de visita perfeito para abertura de um trabalho que é excelente, e mais ainda para ser tocada ao iniciar um show, quando pudermos retomar a rotina normal, pois é aquela música que vai fazer a roda de mosh ser aberta logo no início, catapultando a energia para um nível totalmente elevado.

Logo depois é apresentada “Imensidão“, música que revela uma extrema virtuosidade de toda a banda, mas com destaque ainda maior para o baterista Bruno Silos, que foi uma reposição digna e à altura do antigo baterista Rapha Franklin, e para os vocais de Caio Weber, navegando entre o visceral e a calmaria com muita excelência.

Em suma, “Imensidão” é uma canção com ótimo e potente instrumental, mas com maiores realces para a letra composta por Caio. A música serve para ser aquela mão amiga necessária em momentos de turbulência, que irá te impulsionar a atacar seus demônios pessoais, sejam eles quais forem. E sem dúvida nenhuma, na situação atual que enfrentamos no Brasil, onde além de vivermos conflitos governamentais diariamente, também temos que lidar com as próprias batalhas psicológicas, o trecho a seguir de “Imensidão” serve como um conforto, esperança e uma fagulha de positividade para alguns destes momentos.

Mesmo que o mundo insista em te fazer cair, e o medo faça você querer desistir, aquilo que pulsa ai dentro é maior que as mentiras.”

A terceira música de Caos é a triste e dançante “Céu Nublado“, e talvez essa dualidade de sentimentos ao ouvi-la é que a faz ser uma das melhores do projeto. Ela traz o compositor Weber de peito aberto, externando todas as suas vulnerabilidades, questionando-se sobre “o que realmente precisamos para se sentir bem em definitivo?“.

Sendo um depoimento totalmente confessional e nascida através de voz e violão somente – como é possível ver através do documentário feito sobre o álbum -, no meio do processo criativo da banda ela acaba ganhando implementações que a torna ainda melhor do que já era. A faixa é muito rica, e navega por diversos elementos instrumentais em apenas 4 minutos, iniciando com uma pegada mais eletrônica e ganhando uma ranhura ao ser adicionado alguns efeitos sonoros de synths, que sincronizam com os conflitos iniciais abordados nos primeiros trechos da música, dando um aspecto de um testemunho documental

Difícil mesmo é tentar não se perder no abismo que é sentir, se estar vivo muitas vezes parece não ser, um alívio…

Igualmente em alto nível, e fazendo-a crescer em conjunto das confissões de Caio na letra, aparecem as excelentes linhas instrumentais de Gabriel, Bruno e Giovani, que dão um peso especial transformando-a em um pop rock dançante no refrão, e adquirindo uma força e aceleração ainda maior na parte da música. Estas linhas instrumentais são especiais, e vão totalmente de encontro as esperanças positivas que Caio vai enxergando em seu horizonte.

Tento me convencer que o fim não é a solução pra mim, e que esse Céu Nublado eu sei, logo vai se dissipar, isso vai passar…

Com toda certeza, “Céu Nublado” é aquela música ótima para cantar de peito aberto, pois traz nela: problemas, enfrentamento e solução em um curto espaço de tempo, e transparece que, quanto mais verdadeiramente você entoar junto as frases, maior será a clarividência para você solucionar os problemas, e se for em conjunto de amigos ou família, ainda melhor.

Em sequência, “Neblina” é a track que reduz totalmente a cadência de um álbum acelerado, demonstrando transparência e exposição sentimental na letra composta, se aproximando totalmente de uma pegada emo raiz. A introdução sendo preenchida com as guitarras limpas do Gabe Oliveira, flertam com referências do estilo shoegaze, semelhante à banda Turnover nas músicas “Super Natural” e “Dizzy On The Comedown”, e fazem com que essa aproximação do emo seja ainda mais perceptível, principalmente em partes como no trecho a seguir:

E se eu pudesse arrancar a venda que há em você, te fazer perceber, que o amor não machuca, ele é a cura, então porquê insistir em se machucar?

Logo em seguida vem a doce “Eu Escolhi a Dor“, que te agarra pela calma e afetuosidade logo de início, vindo de oposto a um álbum que começa com toda força. Com um ritmo instrumental totalmente cadenciado, delicado, e soando até mesmo com uma lembrança vaga de um sambinha na introdução, a música relata em sua letra sobre a importância de saber abrir e fechar ciclos, compreendendo quando se deve seguir em frente e carregando uma mensagem que se aplica em diversos segmentos da vida, mas neste caso em específico, muito mais nas relações.

Eu escolhi a dor ao invés de você, pois ambos me fizeram sangrar, mas a dor eu vi cicatrizar, você nunca cicatrizou…

No aspecto emocional, é uma faixa que se assemelha a “Céu Nublado”, pois o instrumental vai crescendo gradativamente de modo perfeito conforme o relato. “Eu Escolhi A Dor” é uma música que ao mesmo tempo traz muita dor e machucados, te demonstra uma luz no fim do túnel apesar de tudo, atestando que tudo é temporário, e soma em nossa evolução como seres humanos.

Encerrando a primeira parte do álbum temos a faixa “Não Vão Silenciar“, que é uma das letras mais simplistas e diretas do disco. Tratando de um ponto de vista totalmente político, ela é simples e traz um recado direto, sem muitas metáforas, e sincroniza exatamente com o momento atual que vivemos, onde assuntos óbvios como preconceito, racismo, feminismo e comunidade LBTGQ+ estão tendo que ser conquistados diariamente, para evitar que o “governo” capitaneado por um falso “messias” atropele minorias.

Iniciando com um instrumental tímido, e crescendo gradativamente com o tempo, ela faz uma perfeita alusão a essas minorias com pouca representação, mas que são maiorias em força, e mesmo recebendo ataques e afrontas diárias no mundo atual que vivemos, não recuam! Buscam avançar, crescer, e batalhar cada dia mais pelo seu espaço, seus direitos, e suas vidas. E em um fragmento da música, a banda canta dados estatísticos importantes deste cenário:

A cada 16 horas uma vida é violentamente interrompida por preconceito e intolerância. É sangue inocente regando o asfalto e fazendo brotar cada vez mais medo e evaporando toda e qualquer forma de esperança…

Distorcendo As Palavras” começa com Bruno descendo o braço na bateria, seguida de riffs embalados propícios para a linha de bateria. A faixa fala sobre perdão, ao mesmo tempo que trata ele como um falso preço pago por fazer o certo, ou por querer parecer certo em um mundo perdido.

Eu acordei e vi tanta gente equivocada, distorcendo as palavras de alguém que trouxe salvação, e não condenação…

Existe também, uma alusão ao momento que vivemos, onde a violência acaba sendo a melhor saída para problemas cotidianos. A métrica da faixa é direta, flertando com harmonias e trocas rápidas de ritmos.

Mais Um Dia (Parte 2)” leva diretamente para trabalhos anteriores da banda, tanto em instrumental, quanto liricamente. Pesando o emocional, mostrando uma faceta normal do pessoal de cada pessoa que se esconde por trás de mentiras cotidianas como um ‘tá tudo bem’ ou ‘vai ficar tudo bem’, a faixa vem como um soco na boca do estômago para quem precisa ouvir o que é dito ali.

A Sós” é aquela faixa respiro dentro de um álbum com tantas pedradas sonoras, mas, claro, sem perder a carga emocional característica da banda em suas composições. Apesar de calmo o instrumental, algo mais clean e atmosférico, o lírico pesa e mostra algo engasgado na garganta implorando para ser dito.

Estive me perguntando, se ela seria capaz de ficar, eu fico me perguntando, se eu sou capaz de ficar…

Com a inserção de uma meia lua em meio ao caos, “O Que Sobra do Adeus” é impecável em seu instrumental, métrica, sentimento, entrega e resultado. Essa mistura mostra que a banda é o maior expoente atual no quesito emoção à flor da pele.

Solidão” é aquela música que joga o emo brasileiro lá no teto. Com a participação de Lucas Silveira (Fresno), a faixa mescla toda a bagagem dos dois vocais em um mix de emoção, potência e simplicidade, resultando em uma das canções mais bonitas que a banda já lançou até hoje.

Essa segunda metade do álbum CAØS trouxe mais músicas de teor emocional, pesadas e que machucam o coração. Não é diferente com “Desabafo“, que encerra o disco. Semelhante ao projeto paralelo do Caio (Monollogo), a faixa é preenchida de voz e violão mostrando algo visceral que, muito provavelmente, era preciso ser dito em todos esses anos. Se referindo a Raphael Franklin, um amigo que partiu, Caio deixa uma carta aberta com todo o coração e verdade para quem estiver ouvindo, e claro, para ele, no céu.

CAØS
Imagem: Capa do álbum “CAØS” / Divulgação

E o caos se fez matéria. Com um trabalho em formato de montanha-russa, CAØS é aquele respiro e, ao mesmo tempo, aquele soco que faz a cabeça acordar para as mazelas cotidianas. A realidade é extremamente bem interpretada nas 12 faixas, no nível de um abraço sonoro, com faixas agressivas, cautelosas, intensas e verdadeiras, receita que a banda segue há alguns anos, e que vem dando certo demais.

O álbum está disponível em todas as plataformas digitais da banda. Assim como disse José Saramago, “O caos é uma ordem por decifrar”, e isso os caras da Cefa fizeram da melhor maneira possível!

10/10

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